Em clima de Woodstock rural e com uma estrutura bem cuidada, o festival Demo Sul 2007 arrastou quase 3 mil pessoas para uma maratona de três dias de música independente, com 26 bandas no total. Realizado anualmente em Londrina, norte do Paraná, o festival já está em sua sétima edição, marcada pela variedade de estilos e influências, com direito a indie, frevo, folk, forró, música celta, hard rock, punk nova-iorquino, psychobilly, ska, dance, big band e moda de viola.
A primeira noite de festival deu preferência às bandas de rock alternativo, com artistas influenciados por stonner rock (The Wind), grunge (Espíritos Zombeteiros, pesados e suingados ao mesmo tempo) e punk norte-americano (New Ones, banda de Rodrigo Guedes, do cultuado Grenade).
Entre os destaques do primeiro dia estão o Charme Chulo, banda de Curitiba que se sentia em casa no interior, com sua surpreendente mistura de moda de viola e Joy Division. Dois nomes locais e uniformizados também roubaram a cena: Os Droogies tocaram vestidos como a gangue delinqüente do filme “Laranja mecânica”, cantando em inglês rock sujo, pesado e cheio de refrões.
Já o Trilöbit utiliza uniformes extraterrestres (macacões verdes que lembram muito as vestimentas amarelas do Devo) e faz uma espécie de dance-surf-punk-eletrônico, cheio de samples e com uma versão barulhenta de “Enjoy the silence”, do Depeche Mode. Os matogrossenses do Vanguart mostraram com seu folk rock (especialmente no semi-hit “Semáforo”) por que são os queridinhos da crítica brasileira.
Longe das confusões do Ira!, Edgard Scandurra trouxe para Londrina seu projeto solo Benzina, acompanhado da baixista Sandra Coutinho (Mercenárias) e da baterista e percussionista Michelle Abu. Misturando música eletrônica e pós-punk, Edgard faz de seu trabalho fora do Ira! um laboratório de timbres e ritmos, bem diferente do rock clássico que consagrou sua banda principal. Com um repertório baseado em seu último álbum, “Amor incondicional”, Scandurra embalou os presentes com canções como a faixa-título e “Do chão não passa”.
O segundo dia de Demo Sul foi o mais diversificado, começando pela mistura de canções folclóricas celtas com rock e música brasileira dos londrinenses do Terra Celta, que transformou o show num Carnaval irlandês, com direito a trenzinho na platéia e tudo. O Los Porongas intimou o público para mais perto do palco, colocando o Acre no mapa independente com seu rock influenciado pelo Who dos anos 1970 e as letras existencialistas de Diogo Soares.
Os locais do Chá de Chocalho modernizaram o forró e abriram espaço para os pernambucanos do Eddie tocarem seus sambas indies e seus frevos punk, enquanto o Junkie Bozo, na seqüência, misturou britpop e rock alternativo com uma pitada de Los Hermanos para fazer seu autêntico indie-pop “pé-vermelho” (expressão usada em Curitiba para falar dos políticos do norte do Paraná que acabou senda adotado como motivo de orgulho pela população londrinense).
Mas quem roubou a noite e talvez todo o festival foram os brasilienses do Móveis Coloniais de Acaju. Com dez integrantes que não paravam de se mexer (especialmente o vocalista André Gonzales), eles fizeram um show com altíssimo grau de diversão. Misturando rock, swing, ska, música do Leste europeu, eles ganharam o público – quem não estava entre os muitos que haviam decorado as letras da banda, ainda podia cantarolar versões de músicas como “Se essa rua fosse minha”, “Carimbador maluco” (Raul Seixas) e até “Glory box” (Portishead). No fim do show, os integrantes da banda abriram a tradicional roda no meio do público e foram tocar no chão.
O Ludov ficou com a difícil tarefa de segurar o público depois da catarse promovida pelo Móveis. Apesar de hits como “Princesa” e “O que eu procurava” (versão do tema principal do filme infanto-juvenil “High School Musical”), o público da banda acabou sendo bastante inferior ao dos brasilienses.
O último dia do Demo Sul foi o mais pesado e barulhento de todos – e ao mesmo tempo, o mais "família". Pais roqueiros aproveitaram a liberação para menores de 18 para levar seus pimpolhos até o festival, que começou mais cedo no domingo. Com um pouco de atraso, o Crazy Horses abriu os trabalhos do dia com um psychobilly acelerado e influências de country, num clima de faroeste zumbi.
Outro destaque da noite foi o Vertix: influenciados por Blondie, Buzzcocks e Undertones, arriscaram uma versão acelerada de “Walk on the wild side”, de Lou Reed.
O Revoult aliou influências de heavy metal e rock progressivo a muita competência técnica – incluindo um cover de "I want you", dos Beatles.
O Fisicopatas botou grande parte dos punks presentes para "pogar", levantando poeira do chão com seu hardcore pesado e distorcido. Debaixo de chuva, o Hocus Pocus segurou o público com um hard rock virtuoso e lapidado.
Quando o Matanza subiu ao palco, as nuvens já haviam passado. Com o peso de um Motörhead country embebido em whisky, o quarteto carioca fez todo mundo cantar com clássicos como “Pé na porta, soco na cara” e “Ela roubou meu caminhão”, além de músicas do novo álbum, como “A arte co insulto”. Depois de muita poeira, chuva e música muito alta, uma hora e meia de Matanza foi o suficiente para lavar a alma e fechar o Demo Sul com louvor.

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