Remelentos do Rock

Fonte: Veja | Autor: Redação | Data: 08/08/2007

Em junho passado, o grupo carioca Los Hermanos fez seu último show. Mas isso não significou o fim de sua linhagem, por assim dizer. Como o bicho da série Alien, o conjunto já havia disseminado suas ovas pelo pop nacional. Delas já nasceram ao menos três herdeiros de seu rock cabeça: a banda paulista O Teatro Mágico, a recifense Mombojó e a brasiliense Móveis Coloniais de Acaju. Os Hermanos misturavam guitarra com tuba? Não seja por isso: suas crias tiram do baú instrumentos como trombone, flauta transversal e escaleta (espécie de teclado de sopro). Investiam na fusão de rock com MPB? Bem, o Móveis Coloniais de Acaju mescla batucada com ritmos do Leste Europeu, num estilo autodenominado de "feijoada búlgara". A semelhança não se esgota no campo musical.

Assim como os Hermanos, as três bandas ostentam letras "poéticas" – e tome metáforas tonitruantes e jogos de palavras como "mar drugada" (entendeu? entendeu?). Por fim, levam adiante as bandeiras políticas, digamos, de seu antecessor. Quando não as radicalizam, como faz O Teatro Mágico. Se os Hermanos celebravam a figura do palhaço como uma alegoria da melancolia ou coisa que o valha, a banda resolveu ela própria encarnar a palhaçada: seus integrantes só se exibem em público vestidos como tais. "O circo fala da pluralidade do ser", filosofa o líder, Fernando Anitelli. Essas bandas são a trilha sonora do momento daqueles que Reinaldo Azevedo, colunista de VEJA, batizou de "remelentos e mafaldinhas" – os universitários de classe média que adoram embarcar em presepadas esquerdóides, como a recente invasão da reitoria da Universidade de São Paulo. Tanto o Mombojó quanto o Móveis Coloniais de Acaju foram forjados por estudantes de universidades federais. Já O Teatro Mágico foi composto por um pessoal mais velho – mas que trafega num meio não menos cabeça, os saraus e oficinas de teatro. As três bandas levam adiante a bandeira da "autenticidade" propalada pelos Hermanos. Algo que, na música, se traduz numa atitude calculadamente despojada e na pose de quem "não se vende ao sistema". O Mombojó até se vincula a uma gravadora – mas uma que ainda mantém certa aura alternativa, a Trama. Nos três casos, contudo, a estratégia de divulgação é de guerrilha. Elas disponibilizam todas as suas músicas de graça na internet e usam os shows como principal fonte de renda (e também como canal de venda de seus discos).

Nem é preciso dizer, tais grupos têm altas pretensões estéticas – para usar uma palavra que causa frisson nesse universo. O Teatro Mágico prefere ser definido como uma "trupe", e não uma banda. Tem formação variável e chega a reunir vinte pessoas no palco (a superpopulação, aliás, é um traço dos novos Hermanos: o Móveis Coloniais tem dez integrantes e o Mombojó contava com sete até a morte recente de um deles, o flautista Rafael Torres, em decorrência de um ataque cardíaco). E não se limitam a tocar e cantar: dançam, fazem malabarismos e outras micagens. "Os palhaços são personagens dispostos a fazer de tudo", diz Anitelli. Em meio às músicas, há pausas para debates sobre temas como a "cultura livre".Outra questão cara a essas bandas é o que se convencionou chamar de "brasilidade". A turma de O Teatro Mágico adora um papo ripongo sobre natureza e folclore. Para explicar seu nome, o Móveis Coloniais conta uma história esquisita sobre uma batalha de tintas ufanistas que no século XVIII (ou XVII) uniu índios e portugueses. Mas a moçada é multicultural, faça-se justiça. "Todo tipo de arte nos influencia", diz o tecladista Eduardo Borém. O uso dos ritmos eslavos tem lá sua explicação, por exemplo. "Esses elementos vêm da ascendência de alguns integrantes e da estética dos filmes do diretor bósnio Emir Kusturica", informa Borém. Em última instância, porém, são as letras que dizem tudo sobre os novos remelentos do rock. Em Prato do dia, O Teatro Mágico canta versos do tipo: "Como arroz e feijão que só se encontram depois de abandonar a embalagem". O Mombojó dá sua contribuição ao bestiário. "O homem é como a espuma do mar / que navega pela superfície das águas", ouve-se em Homem-Espuma. Quase dá saudade do Los Hermanos. Quase.

Saiba mais

Veja

Edição 2020, de 08 de agosto de 2007.


Compartilhar em comunidades, enviar por email, etc. Compartilhar esta página...

Boletim Notícias Móveis

Nome

Email
Assine nosso boletim de notícias e saiba tudo o que acontece com os Móveis.

Download do Complete no Ãlbum Virtual

Notícias relacionadas

Móveis Convida 6 Móveis | 11/08/2007

Móveis na Veja desta semana! Móveis Coloniais de Acaju | 05/12/2004

Obrigado! | 01/10/2007

Off the Wall Esdras Nogueira | 26/06/2009

Móveis Convida VI: atrações confirmadas!! Fabio Pedroza | 17/08/2007


Logotipo Móveis Coloniais de Acaju